quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Psicologia na TV - Parte 1



Na revista Veja desta semana saiu uma pequena reportagem ("O Big Brother do vício"), publicada imediatamente após a reportagem de capa, sobre um programa de TV denominado Intervenção, vinculado no Brasil pelo canal pago A&E. A seguir um trecho da matéria:

Atração do canal pago A&E, o reality show americano Intervenção oferece uma visão da luta contra o vício. A cada episódio, aborda-se um drama real. A pessoa é informada de que uma equipe de TV vai à sua casa para gravar sua participação num documentário sobre o tema. Na verdade, o programa foi contatado por parentes e amigos que buscam uma forma de arrancar o doente do vício. Invariavelmente, a situação é desesperadora. As pessoas estão a tal ponto enredadas que não se contêm nem diante das câmeras, nos cinco dias em que seus passos são acompanhados. Uma violinista adolescente consome speedball, mistura de heroína e cocaína, enquanto coça as erupções purulentas provocadas pela substância em sua pele. Um lenhador usa uma droga não menos destrutiva, a metanfetamina – e arrisca a própria pele derrubando imensos pinheiros, totalmente fora de si. O clímax de cada episódio é a "intervenção". A pessoa é confrontada pela família e por um terapeuta, empenhados em convencê-la a se internar numa clínica.

Intervenção está em sua quinta temporada e é o programa mais visto do A&E nos Estados Unidos (na TV paga brasileira, pode-se acompanhá-lo nos fins de tarde de sábado, pelo mesmo canal). Seus bons índices de audiência deram origem a um fenômeno mórbido: outros programas transformaram a guerra contra o vício em entretenimento. Numa era em que clínicas de reabilitação – rehab, na forma simplificada em inglês – ganharam visibilidade pelo entra-e-sai de famosos, o Celebrity Rehab (sem previsão de ser exibido no Brasil)do canal VH1, enfoca os esforços de gente como a loira dinamarquesa Brigitte Nielsen, ex de Sylvester Stallone e presença constante em reality shows, para largar o álcool e as drogas. O próprio A&E investiu numa versão ficcional de Intervenção. No ar no Brasil há um mês, a série The Cleaner traz Benjamin Bratt no papel de um "interventor".

Os interventores são treinados para lidar com o vício em sua forma mais pesada. O episódio que mostrou o drama do lenhador viciado em metanfetamina expôs o ponto de tensão a que a coisa pode chegar: acuado, por pouco ele não explodiu. Só com muita lábia Candy Finnigan, uma das três interventoras do programa, o acalmou. Candy, de 61 anos, é uma ex-alcoólatraDiz ela: "Faz 23 anos que parei de beber e ainda vivo minha recuperação a cada dia".

Vocês entenderam a proposta do Reality Show? Um pessoa no fundo do poço em função da dependência de álcool e outras drogas recebe uma intervenção surpresa da família e amigos orientados por um especialista. Parece interessante, apesar de que buscar audiência em cima do profundo sofrimento e degradação de uma pessoa é no mínimo questionável eticamente, além de muito batido (afinal o que é o Big Brother?). De qualquer forma fica a dica: o programa passa todos os sábados às 18:00 horas no canal A&E. Para saber mais sobre a série vale a pena dar uma lida numa reportagem do jornal New York Times, traduzida e publicada pelo site Último Segundo e transcrita abaixo:



Intervenção: eles bebem, se drogam e você está lá

Atualmente em sua quinta temporada, “Intervenção” fala para usuários de drogas, alcoólatras e toda uma variedade de viciados que eles estão sendo filmados para um documentário sobre vícios quando, na verdade, suas famílias estão se preparando para confrontá-los em uma suíte de hotel para serem rígidos com seu bem-estar. Normalmente, os últimos 25 minutos de cada episódio são dedicados à intervenção em si, sempre guiada por um conselheiro profissional.

Dos 102 viciados apresentados no programa, somente 2 cortaram suas importantes relações pessoais e recusaram tratamento. (Um deles concordou em ir para uma clínica de reabilitação um mês depois).

“Intervention” se tornou o maior programa do A&E. Recentemente foi nomeado para seu primeiro prêmio Emmy, por excelente série de reality show, e não há dúvida de que ele se destaca. Nada na televisão se compara com seu diferente cálculo de exploração e boa vontade. As câmeras filmam os viciados enquanto eles injetam, fumam, pedem por dinheiro e conseguem a droga.

Nessa temporada vimos Charles, um viciado em heroína que destruiu todas as suas veias, tentou se injetar intramuscularmente, atrás de seu quadril, como se fosse uma mulher de 40 anos administrando seus remédios para fertilidade. Charles tinha as mãos imundas. “Intervenção” gosta de lembrá-lo que higiene pessoal é um dos pontos-fracos dos viciados; cenas mostram unhas que parecem que passaram um ano no carvão entre agulhas e garrafas vazias de vodka.

Histórias tristes

A fórmula usada pelo programa foi feita para sustentar um dos principais princípios do movimento de recuperação: que todo viciado realmente é a mesma alma triste – fumando, injetando e bebendo para preencher um buraco destruidor. Quase nenhum episódio de “Intervenção” acontece sem uma montagem de fotos dos viciados em épocas mais felizes, a infância passada com o cabelo sempre cortado, andando de bicicleta, indo à praia, tocando a flauta. E mesmo assim todos os detalhes do vício são, de diversas maneiras, horríveis.

Molestada quando criança, Allison nunca foi bem na escola até que seu namorado a apresentou aos inalantes durante seu primeiro ano na Universidade de Boston. Quando o programa a filmou alguns anos depois, ela passava quase todo momento baforando em garrafas de removedor de poeira de computador. Ela comprava 10 por dia, da mesma loja, que a deixavam falando e parecendo como uma versão grosseira de uma das bruxas de “MacBeth”.

Esse episódio foi um dos mais impressionantes da televisão em sabe-se lá quanto tempo. Mas mesmo quando o “Intervenção” se foca mais no convencional – bebida – os resultados nunca foram leves.

A temporada começou no Havaí com Dan, que acordava às 4 da manhã e abria uma cerveja à caminho do banho. Durante um período ele melhorou, disse sua mulher, Lisa: “ele estava meio que controlando, escolhendo uma long neck ao invés de uma caixa com 12 latas. Então pensei comigo mesma, ‘ele está indo tão bem’”.

O programa sabe quem, no final, vai bem e quem não consegue. Os produtores permanecem em contato com os viciados, conselheiros e parentes para ver quem recaiu e quem se manteve no caminho certo. Em um episódio de acompanhamento na temporada passada, Ryan, da anterior, não teve sucesso no tratamento e foi espancado enquanto comprava heroína em Los Angeles.

De acordo com o programa, 75% dos viciados permaneceram sóbrios depois que a série começou há quatro anos. “Intervenção” é violento, às vezes sensacional e um pouco louco.

OBS: no YouTube há uma série de videos, sem legenda, com os episódios de Intervenção.

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